Fé e pandemia
Passei os últimos dias pensando sobre o papel da fé religiosa em momentos delicados como esse no mundo. Foi bem noticiada a resistência de alguns famosos pastores neopentecostais a suspender os cultos-negócios em seus templo-empresas. Um alerta, então, é necessário. Não dê atenção se algum líder espiritual, guru, pastor, padre, médium, ou sacerdote, dizer que inspirado por entidades, deuses ou pelo Espírito Santo, descobriu alguma cura milagrosa para o Covid-19. E, por outro lado, se essa crise se estender por meses, com longos períodos de isolamento e colapso nos serviços de atenção à saúde, como projetam governos e pesquisas, é provável o aparecimento de figuras messiânicas disseminando discursos milenaristas/quilianistas, principalmente onde o ultraconservadorismo religioso fez terreno fértil. Em verdade, se as práticas religiosas, milenares que são em todo o mundo, fossem capazes de apresentar soluções eficazes e aplicáveis em larga escala contra as grandes pandemias que assolaram o mundo (varíola, gripe espanhola, peste, HIV, tuberculose, etc.), não teria sido necessária a evolução tecnocientífica que muniu a medicina na guerra microscópica contra as infecções. Religiões não evitam pandemias, não imunizam adeptos. Religiões podem favorecer formas diversas de lidar com a vida e com a morte, de concebê-las, mas não podem evitar esta última.
Existe sim uma dicotomia ciência/religião, porque existem territórios de domínio para cada uma delas. Deixemos à ciência a procura por curas, vacinas, e produção de informação sobre o Covid-19. Às religiões, é oportuno centrar no terreno que lhe é a muito tempo propriedade, o do espírito. O papel da religião, quando eticamente comprometida, é encantar o espírito em favor do encantamento do mundo, protegendo seus adeptos das alienações de um mundo globalmente perturbado, que desumaniza e objetifica os sujeitos até seu total apagamento. A desumanização conduz à barbárie, e nenhuma sociedade, por mais técnica e cientificamente amparada, está imune a ela. A barbárie é o colapso do espírito, e quando a religião abandona seu território para avançar esfomeada sobre os terrenos da política ou da saúde, ela própria se barbariza e contribui para a desumanização do mundo. Nós religiosos, então, devemos é nos concentrar no cuidado do espírito coletivo, amparando nossos pares, combatendo oportunistas milenaristas, e formando uma rede de proteção e informação entre os mais pobres desse mundo, que são os mais sujeitos a desumanização do capitalismo global, e à dificuldade no acesso aos recursos de saúde. Religiões, sempre que orientadas por líderes socialmente comprometidos, estiveram no socorro das populações miseráveis e vulneráveis bem antes da chegada de qualquer política pública.
Salvaguardar o espírito é nosso dever, apenas esse, sem dispensar os cuidados sanitários indicados pelo poder público, indispensáveis no combate a doença. Logo, se qualquer líder religioso faz pouco caso da gravidade da situação em que vivemos, ele é completamente irresponsável para conduzir a fé de seus fiéis, e incapacitado para lidar com a complexidade do espírito.

